Biografia

Evaldo Novelini, na terceira pessoa

Dizem os mais antigos que Evaldo foi nome escolhido pelo pai, Oswaldo. O velho saiu de casa com a recomendação expressa da mãe de manter a tradição familiar, colocando entre o prenome e o sobrenome do rebento recém-nascido o nome de um dos avós. O do ancestral paterno, Victório, já coubera ao irmão mais velho. Restava o do materno, Remoge. Conta-se, entretanto, que o velho Oswaldo, rumando ao cartório, pôs-se a matutar sobre se não ficaria estranho chamar o caçula de Evaldo Remoge. Diz-se que, no caminho, testou a sonoridade do composto, repetindo em voz alta, sozinho: Evaldo Remoge, Evaldo Remoge, Evaldo Remoge. Não teria gostado. E desobedeceu a mulher, que ao ver o registro nada mais pôde fazer além de zangar-se com o marido.

Batizado, Evaldo Novelini estava.

Nasceu de cesariana na noite de 26 de janeiro de 1976, na Santa Casa de Misericórdia de Santa Adélia, uma cidadezinha que então não possuía seus 10 mil habitantes, localizada a noroeste do estado de São Paulo. Foi fundada em 22 de março de 1916, quando um certo coronel Reliquias Guimarães resolveu construir ali a sua choupana. E o que fazia o tal por aquelas paragens? Trabalhava como empregado da fazenda Dumont, de propriedade de Luiz Santos-Dumont. Sim, ele mesmo, irmão do pai da aviação Alberto Santos-Dumont. O município se desenvolveu graças à Estrada de Ferro Araraquara (EFA), cujos trilhos cortavam seus 331,97 quilômetros quadrados de área, a uma altitude de 618 metros do nível do mar.

Filho de um pequeno produtor rural e de uma dona de casa, Evaldo morou no campo até seus 16 anos. Foram seus melhores anos. Até hoje, não consegue lembrar das pescarias com os amigos no corregozinho, alcunhado do Leite, que cortava o Sítio São Luiz, onde também se nadava, inteiramente nu ou de cuecas, das peladas no campinho de futebol, da cidade de brinquedo construída sob a sombra generosa de uma frondosa sete-copas ao lado da casa simples e grande, dos carrinhos que se empurravam pelas ruas imaginárias até os joelhos sangrarem, sem que a nostalgia invada sua alma.

Foi na infância que Evaldo Novelini começou a constatar a grande sabedoria embutida nos ditos populares. Se há males que vêm para o bem, não há dúvida de que as grandes paixões da vida do futuro jornalista, ler e escrever, foram plantadas por volta dos sete e oito anos. Acometido por uma doença conhecida por febre reumática, que causa dores lancinantes nas articulações de todo o corpo, o garoto foi submetido a um longo período de repouso.

Por muito tempo, enquanto os amigos se divertiam jogando bola, planejando caçadas, brincando de esconde-esconde ou pega-pega, Evaldo Novelini, sentado no sofá ou deitado na cama, lia de tudo. Monteiro Lobato e seu sítio do Picapau Amarelo estavam entre seus preferidos. Sua identificação com as personagens do grande escritor paulista era deveras intensa: a sabedoria ilimitada de Dona Benta, a avó carinhosa grande amante dos livros; a coragem do menino Pedrinho, destemido mesmo diante de cucas, sacis, minotauros e outros seres fantásticos; e, principalmente, a sagacidade da boneca de pano Emília, inconformada diante da condição humana, sempre com uma observação desconcertante e questionamentos capazes de abalar o mais confiante dos mortais.

Por esse relacionamento que começou ainda nos tempos de infância, e que recrudesceu com o passar do tempo, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) ocupa um assento na mesa da santíssima trindade brasileira da qual Evaldo Novelini é fã ardoroso e defensor intransigente. Os outros dois comensais são o gaúcho Getulio Dornelles Vargas (1882-1954), por causa de sua coragem de enfrentar o estigma de que o Brasil não poderia ser uma nação desenvolvida, e o paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1891-1968), cujos empreendedorismo e paixão pelos meios de comunicação explicam a devoção – descontados aqui, evidentemente, seus métodos.

O fato de terem sido contemporâneos é mera coincidência.

Quando estava terminando o colegial, no início da década de 1990, Evaldo Novelini viu-se em uma encruzilhada. O que fazer profissionalmente? Gostava de arquitetura, mas a necessidade de aprender cálculos logo o afastou dessa opção. Como não sabia fazer absolutamente mais nada além de escrever, escolheu cursar jornalismo. De quebra, teria a possibilidade de denunciar a opressão do sistema contra os frágeis membros da sociedade – como se vê, aos 18 anos o nosso menino ainda guardava uma certa ingenuidade.

O fato é que viajou o Brasil prestando vestibulares em escolas públicas. Não passou em nenhum. Em 1994, aprovado na Universidade de Mogi das Cruzes, uma instituição de ensino privada, não pensou duas vezes, fazendo a matrícula nos dias seguintes. Não se arrependeu.

Enquanto estudava, começou a trabalhar. Sua primeira ocupação foi em um semanário de sua cidade natal chamado Folha de Sta. Adélia – hoje extinto (não há nenhum estudo que relacione a passagem de Evaldo Novelini ao fim da circulação do jornalzinho). Colaborava com uma coluna semanal sobre, vejam só, economia e política. Nas férias escolares em Mogi, voltava para Santa Adélia e vivia dentro da redaçãozinha daquele jornal, onde fazia de tudo, menos diagramação das páginas, ofício que até hoje não entende. Apurava, escrevia, fazia as fotos, titulava, botava as legendas e, depois do trabalho pronto, ainda era responsável por, nas madrugadas de sábado, distribuir os exemplares nos quatro municípios onde o hebdomanário circulava, além da sede: Ariranha, Palmares Paulista, Pindorama e Fernando Prestes.

Não tinha salário. Para ganhar dinheiro, vendia anúncios para o semanário, sendo reembolsado proporcionalmente. Seu primeiro emprego com carteira assinada foi conseguido em agosto de 1998, contratado para atuar como repórter de esportes do jornal Diário de Suzano. Desde agosto de 2001 atua em O Diário de Mogi, onde integra o conselho editorial.

Casou-se em janeiro de 2002 com Suelis Elizandra da Silva Novelini. Em 2004, recebeu o maior presente que um homem pode ganhar em vida: o nascimento de seu primeiro filho, Vítor.

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